Grohmann: É importante dizer que o que diferencia também o Brasil de processos da Europa e dos Estados Unidos é que, aqui, o bico e a viração, que é o se virar, sempre foi a norma, não a exceção. No fundo, aqui o trabalho informal sempre foi a regra. Então, convivem e vão conviver trabalhos históricos, esse trabalho operário e o trabalho de atendente, com esse trabalho plataformizado. Isso vai ocorrer por muito tempo. De maneira que, um, a automação nunca vai ser completa e, dois, o que vai existir é que se vai cada vez mais espremendo sub-empregos, plataformizados ou não, e não necessariamente uma automação completa.

Nessa crescente plataformização do trabalho, nós vemos que o freelancer de classe média, há dez anos, não trabalhava numa plataforma, alguns trabalhavam por opção e outros por imposição, para pagar as contas. Isso, de alguma maneira, se plataformizou. Existe cada vez menos uma absorção pelo mercado formal, quando há a absorção pelo mercado formal, não existe mais uma carreira. Mesmo na carreira de jornalista, que é uma profissão que eu estudo há mais tempo, as pessoas ficam, no máximo, 10 anos numa redação, em média. Tem muita gente que transita entre carreiras, mesmo no mercado formal. Então, de maneira que, daqui a 10 anos, essas coisas vão continuar convivendo no Brasil.