Eu posso citar três tipos de movimentos que eu tenho visto em relação a mudar as coisas no trabalho digital. E nenhuma dessas coisas é revolucionária, mas também tem gente tratando de uma forma mais radical. A primeira dimensão é o que eu tenho chamado de regulação do trabalho nas plataformas digitais, um movimento vindo do pessoal da área jurídica que tem lutado para regular esse trabalho que é dito que não é trabalho ou não tem vínculo com as empresas como um trabalho que seja reconhecido. Isso vai desde atuações do Ministério Público do Trabalho, que está, de alguma maneira, envolvido com essa questão no Brasil todo, tem relatórios sobre isso. A OIT [Organização Internacional do Trabalho] tem feito relatórios sobre o que chama de trabalho decente agora nas plataformas digitais. Tem um trabalho que nós estamos trazendo agora para o Brasil, que é um projeto de Oxford, chamado Fair Work — trabalho justo –, que, partindo dos critérios da OIT sobre trabalho decente, tenta classificar as plataformas de trabalho de acordo com essa questão. Basicamente, ela tenta pressionar as plataformas digitais por melhores condições de trabalho, por vias jurídicas, políticas, midiáticas. Já tem pilotos na Índia, na África do Sul, está começando na Alemanha e na Irlanda, e vamos começar, no ano que vem, no Chile, no Brasil e na Indonésia. Essa primeira questão é a regulação do trabalho.

Uma segunda dimensão é a organização coletiva dos trabalhadores, que têm, de alguma maneira, redescoberto formas tradicionais de luta, mas também se descobrindo nesse processo como trabalhadores e quais mecanismos de organização podem ser colocados. E uma terceira dimensão é uma tentativa de criar outras formas de organização do trabalho que sejam autogeridas. Aí eu indico principalmente um movimento, que também tem vindo para o Brasil, mas vem dos EUA, que é o chamado cooperativismo de plataforma, que busca aliar todo o potencial tecnológico das plataformas com a organização do trabalho cooperativado. Isso significa desde, por um lado, plataformizar cooperativas já existentes, até transformar plataformas em cooperativas. Tem desde cooperativas de agricultores que plataformizaram tipo um iFood, em que você pode comprar direto deles. Tem proposta de Airbnb que sejam geridas pelas cidades. Aqui no Brasil, tem o Cataki, que é a plataforma dos catadores de latinha, tem cooperativas de fotógrafos, de games, em várias áreas. Então, esse movimento de cooperativas de plataformas têm vindo forte e tem outros movimentos que têm se colocado nesse debate. Por exemplo, o pessoal dos EUA que fez a campanha da Ocásio-Cortez [deputa da esquerda do Partido Democrata nos EUA], no ano passado, está criando a Means TV, que está sendo chamada de Netflix anticapilista e é uma plataforma de streaming para conteúdos anticapitalistas, funcionando como uma cooperativa de produtores de audiovisual. Então, tem rolado movimentos também em buscas de autogestão e outras formas de organização do trabalho. Essas três dimensões são reformistas.

Mas tem pessoas que vão defender, e isso está no livro ‘Riding for Deliveroo’, que a cooperativa é uma situação paliativa e que isso só vai ser melhorado se houver uma expropriação das plataformas digitais pelos trabalhadores, pensando que esse seria o futuro do trabalho possível e não o futuro do trabalho que as empresas, de alguma maneira, querem e nos fazem engolir. Em abril do ano que vem, uma programadora chamada Wendy Liy vai lançar um livro chamado ‘Abolir o Vale do Silício’, em que ela vai dizer como é possível reapropriar a tecnologia do Vale do Silício para fins socialistas. Todos esses exemplos que eu falei mostram, de alguma maneira, que as coisas estão em movimento e que, se há por um lado uma força muito forte dos novos mecanismos do capital por maior controle, por intensificar a precarização do trabalho, há também, ainda que em menor grau, tentativas de resistência e alternativas a esse cenário. Então, acho que é o nosso papel como trabalhadores, como pesquisadores, como academia, não só analisar esse cenário, mas também ajudar a criar mecanismos e também políticas públicas para que se transforme de uma maneira justa. Precisamos buscar formas de reapropriar as plataformas de formas coletivas e cooperativas, o que inclui pensar a noção de comum aplicada a dados, algoritmos e softwares