Grohmann: Dependência. A gente volta, na indústria 4.0, à dependência 4.0. Essas plataformas digitais, de alguma maneira, dependem de mecanismos que o Brasil não controla. E uma coisa básica, 30% do dinheiro pago aos motoristas da Uber não fica no Brasil. Ou seja, como é que a gente cria mecanismos para confrontar isso do ponto de vista brasileiro, senão a gente vai aprofundar o nosso lugar periférico e dependente. Aí precisa também, e esse é um movimento que nós pesquisadores estamos começando a fazer, dialogar com pesquisadores do sul global que têm pesquisado essas questões. Esse é o grande desafio, de como superar esse lugar de país periférico, mas que demanda uma mudança estrutural de base no que se refere às políticas de tecnologia e à questão do próprio trabalho. De tudo que eu disse que acho que não é inevitável, acho que essa é a barreira, do ponto de vista brasileiro, mais difícil de ser transformada, justamente porque, como você destacou, é uma questão histórica e que, de alguma maneira, agora se aprofunda. Qual é a autonomia do país em relação à tecnologia? É muito engraçado, muito curioso, como tem um autor chamado Álvaro Vieira Pinto, que foi professor do Paulo Freire, que é um pesquisador dos mais relevantes para pensar tecnologia do ponto de vista brasileiro e escreveu, nos anos 70, um livro chamado ‘O Conceito de Tecnologia’, pensando o que significa tecnologia do ponto de vista do capitalista dependente no Brasil, e é um autor completamente esquecido, inclusive pela própria esquerda, e que poderia, mesmo com livros da década de 70, nos ajudar a pensar como recondicionar a autonomia do País e dos brasileiros em relação à tecnologia e a esse capitalismo dependente. E aí, o Álvaro Vieira Pinto diz que não dá para descolar tecnologia e trabalho e sair por aí, e isso são palavras dele, dizendo que agora vivemos uma revolução tecnológica ou que agora vivemos numa era tecnológica, porque o ser humano sempre produziu tecnologia. O que significa pensar quais os papeis que essas tecnologias desempenham no cenário econômico-político global e qual o lugar do Brasil. E eu termino fazendo um convite à leitura desse livro do Álvaro Vieira Pinto, chamado ‘O Conceito de Tecnologia’.