A subjetividade do neossujeito é, podemos dizer, uma subjetividade construída no reagir e responder às demandas do mundo e não na constituição de si, seguida da transformação de si e do mundo. Uma subjetividade que em termos lacanianos (psicanalista francês, Jacques Lacan) não opera no mundo conforme o desejo individual, mas adapta o próprio desejo de forma tão incisiva que pode nem mesmo chegar a conhecer o próprio desejo.

Uma subjetividade que em termos winnicottianos (nos referimos a Donald Woods Winnicott, psicanalista inglês contemporâneo de Lacan) não se constrói para culminar num ser integrado e estruturado para a autenticidade, não chega a SER. O mal-ser é o eu que não chega mesmo a constituir-se e já desde cedo responde ao mal-estar social. A subjetividade moderna, entendo, se relaciona mais ao winnicottiano mal-ser, do que ao freudiano conhecido mal-estar.

O sujeito reage ao mundo cada vez mais cedo. E cada vez mais cedo as crianças deixam a infância suja de areia para a infância do tempo controlado por mil e uma atividades que estimulam a cognição, mas não contribuem para a elaboração e da constituição saudável do lúdico, do brincar, da criatividade, em suma, da psique. E é na adolescência que explodem as consequências do mal-ser infantil. O jovem é a representação da sociedade do desamparo. Frágil psiquicamente, impossibilitado de ser quem é, muitas vezes não chega mesmo a constituir-se no que é. Impossibilitado de recorrer a alguém para exteriorizar a angústia, já que o sujeito neoliberal não chora, apenas sorri, o jovem se vê quase obrigado a engolir sua tristeza ou a marcar o que não conhece na forma da imagem da própria pele cortada, mutilada. O sangue e a dor física tornam real a dor psíquica que não foram ensinados a lidar, não aprenderam a nomear.

O dano da fantasia de realização para a saúde mental é difícil de ser mensurado. Mas sem dúvida, uma sociedade que constitui subjetividades para a disputa pelo melhor sorriso e não abre espaço para a exteriorização do choro vai produzir sujeitos cada vez mais iletrados para o sofrimento. E quando se proíbe a expressão das emoções menos desejadas (como a tristeza, o medo e a angústia) se proíbe por consequência a aprendizagem, a capacidade para lidar com elas. A questão é que essas emoções não deixarão de existir mesmo que o sujeito moderno perca a capacidade para crítica em função do imperativo do gozo. Se há algo desobediente, esse algo é a tristeza. A construção de espaços para as angústias nesse contexto, é a construção de espaços para a reconstrução do coletivo, para a capacitação para a crítica e para posicionamentos no mundo que nos possibilitem nos enxergar em nós e no outro, sem precisar recorrer ao grito, ou aos extremos.